
Olhar parado, olhando a chuva que bate no vitron, naquela Segunda-feira cinza de um inverno rigoroso. Eu não sei quando ela partiu, quando me tornei triste e isolado com meus próprios pensamentos, mas eu sei que em algum lugar ela está lá, esperando a hora de novamente brilhar, sorrir, correr e sujar os sapatos nas poças de lama depois de um dia inteiro brincando na praça que há em frente a casa que um dia foram de meus avós.
Eu sei que em algum lugar distante ela dorme tranquila, sem pressa, sabe admirar a natureza e corre atrapalhada até perder o fôlego atrás das borboletas que alegram as primaveras coloridas. Queria mesmo é comer os doces feitos pela vovó ou correr atrás das pipas que enfeitam e bailam no céu azul da cor do mar. Lembro-me do mar...Lembro-me do olhar dela entusiasmada ao ver pela primeira vez...O mar...Ah,o mar! Pular todas as ondinhas que têm direito, fazer castelos de areia e observar o romântico pôr–do- sol.
Ela foi e nem me dei conta, não me atrelei a data, lembro que ela foi tão rápido que não pude me despedir. Mas todos são bobos, ingênuos e quando à tem na mão; à despreza. Pobres mortais tolos e maledicentes que infelizmente me incluo. Não sabem dar valor à ela nem a vida.
Um certo dia quando sol já se recolhia para dar lugar a noite que encantava com a sua dama mais bela: a lua. Resolveu sair pela rua à tentar ver onde o sol se escondia quando partia, andou quilômetros horizonte à fora...Quando chegou em casa exausta de sua aventura, a mulher carrasco na adolescência e hoje sua melhor amiga, deu-lhe o devido castigo pela travessura, mas mesmo com a palma da mão marcada em sí, na cama, pensou em como o sol, mesmo enorme, era tão rápido e se escondia com tanta facilidade. Nunca enfim, soube onde o sol havia se escondido.
Por um momento, fez-se o silêncio, não havia bicicletas, bolas ,carrinhos de rolimã, pega-pega e corridas na chuva. As necessidades do dia a dia formaram um nevoeiro em sua vista, o capitalismo mais do que selvagem, invadiu o seu tempo, aliás o tempo já era tomado, por diversas obrigações, como uma metástase que judia do organismo. Era a sua vez... Fecharam-se as cortinas e tudo que lhe restava era a solidão de um dia chuvoso e o estresse da Segunda-feira.O olhar que antes via as borboletas e admirava as cores do arcoíris, hoje olha com pressa. Na alma traz cicatrizes e no peito a dolorosa vontade que ela retorne. Mas eu sei que ela está lá, não sou nenhum demente que tem delírios absurdos, sei que ela está lá...Como a brasa que queima lentamente, mas não se apaga...

Ela...É a criança que existe dentro da minha alma. É aquela do olhar vivo, de sonhos e de planos. Ela sorri todas as manhãs suplicando liberdade, pedindo que eu olhe com calma a vida, porque como diria o poeta : "A vida é curta”.
É nesse exato momento que ela olha admirada o céu e se espreguiça lentamente. Aproveita o mais lúcido momento e respira a liberdade...Fecha os olhos e deixa o vento fresco da manhã bater suavemente em seu rosto e diz para o universo em alto e bom som:
- Viva a liberdade que arde dentro desse corpo cansado da repressão social.

